quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Desequilíbrio ambiental, cultura local e cultura tecnológica - A parceria entre a Associação dos Moradores do Jardins de Petropolis e o EI

O desequilíbrio hidrogeológico do meio ambiente é um problema real que afeta o território brasileiro da mesma maneira que afeta outras realidades espalhadas no mundo todo. As catástrofes e os prejuízos humanos e materiais, tantas vezes objeto de manchete por parte da mídia, são os efeitos mais evidentes desse problema. Desastres naturais na realidade são o resultado, muitas vezes, da acumulação e da sedimentação do desequilíbrio em conseqüência de ações desarticuladas e equivocadas.
Este processo de evolução do desequilíbrio ambiental é o fruto de posturas e atitudes cujas raízes mais profundam encontram-se na própria cultura das populações afetadas.
A cultura local e as práticas associadas à ocupação, implantação e gestão dos assentamentos humanos são elementos que caracterizam e distinguem cada civilidade. A história nos ensina que essas práticas evoluem lenta e progressivamente e são frutos de ajustes contínuos e pormenorizados. Além do mais as ações de intervenção devem ser feitas em uma escala que possa ser dominada para controlar efeitos não previstos. Exemplo disso é a história de Veneza e da sua laguna, onde, ao longo dos séculos, os venezianos, por questões de sobrevivência, empenharam-se em compreender as características e os processos mais íntimos que regulavam o ecossistema da laguna, ao centro da qual sua cidade estava implantada. Esse conhecimento permitiu-lhes equilibrar esse ecossistema instável por natureza, evitando os cenários finais que seriam de um lado o assoreamento, e isso foi evitado desviando para o mar uma boa parte daqueles rios que desembocavam na laguna e do outro a invasão do mar, que foi evitada implementando engenhosas obras de engenharia hidráulica. Os notórios problemas que a cidade e seus habitantes vivem atualmente são de origem contemporânea e resultado da perda desse conhecimento ao longo dos últimos 200 anos.
No caso brasileiro as práticas associadas à ocupação dos assentamentos humanos remontam ao processo de colonização portuguesa e são marcadas, desde então, por uma importação exógena e acrítica de idéias, conceitos, práticas e tecnologia. Esta postura, que se reproduz para todos os campos do conhecimento, permanece ao longo de toda a história brasileira tornando-se parte integrante de uma cultura dissociada do conhecimento intimo da realidade físico-ambiental. A sustentabilidade ambiental no seu sentido mais amplo passa através desse conhecimento mas, apesar dessa consciência existir, os acontecimentos do dia a dia mostram o quanto a aplicação e implementação desse conceito encontra-se longe de ser uma realidade.
Atualmente não é mais suficiente manifestar-se favorável a um certo tipo de idéias, ocorre tomar atitudes e implementar ações, programas e criar uma cultura através do fazer pragmático. As soluções existem e estão disponíveis. Nunca como hoje é tão fácil ter acesso à informação e ao conhecimento no seu sentido mais amplo, entretanto este conhecimento a disposição não se transformou ainda em melhorias qualitativas do nosso habitat.
O desafio que está lançado é transformar este conhecimento em conhecimento "ativo", implementando, para os nossos problemas, soluções ad-hoc, especificas, peculiares, aptas e adaptadas ao meio ambiente que se pretende equilibrar. Para que seja alcançada esta meta é necessário que esse conhecimento seja alimentado de todas as formas possíveis pelo conhecimento intimo e profundo do ambiente que passa obrigatoriamente pela avaliação do desempenho das soluções aplicadas, isso podendo e devendo significar também correções de rumo e ajustes que se tornam importantes para a consolidação de uma nova cultura ambiental.
A proposta de cooperação tecnológica entre a Associação dos Moradores do Condomínio Jardins de Petropolis e o Escritório de Integração (EI) do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais está imbuída desse espirito: a partir dos problemas identificados elaborar um estudo integrado sobre as origens, as manifestações para a busca de soluções ambientalmente compatíveis e de baixo impactos.
O EI trabalha nessas questões há algum tempo possuindo a linha de pesquisa "desenvolvimento tecnológico de soluções de mesoestrutura de baixo impacto ambiental" e trabalhando em atividades e propostas de reabilitação físico-ambiental de áreas degradadas.
A proposta de parceria com a Associação dos moradores do Jardins de Petropolis é o desenvolvimento de uma intervenção em um trecho piloto para que possam serem redefinidas as práticas de manejo e gestão do recurso água de tal maneira que possam serem ajustadas e aplicadas em todas as microbacias conformadoras da área, para além dos próprios limites administrativos.
Objetivo final é buscar soluções locais para resolver os problemas existentes e implementar uma nova postura onde a água passa a ser um elemento com o qual cada morador possa conviver, e bem, no seu dia a dia. Em quanto proposta, implica na aplicação e no desenvolvimento tecnológico de soluções de mesoestrutura ajustadas dinamicamente ás peculiaridades locais com avaliação de desempenho, adequações e correções sucessivas, para que a intervenção nos Jardins de Petrópolis seja um exemplo de aplicação do conceito de sustentabilidade e um modelo de reequilibro ambiental.
Alfio Conti – Arquiteto, Urbanista e Planejador Territorial

2 comentários:

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com disse...

Essa dicotomia meio ambiente-moradia é bastante instigante.

meg disse...

fala serio nao entendi nada nao da pra resumir?