quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O rio São João e a cidade de Itaúna

Lembrando dos nossos rios e de sua importância para nossas cidades, posto esta carta escrita alguns meses atrás para o Blog do colega Sergio Machado.

Prezado Sergio,
obrigado pela possibilidade que você me oferece de falar de Itaúna. Agradeço também pelo elogio de me considerar um estudioso de Itaúna. Sempre me considerei e continuo me considerar nada mais que um atento observador. Confesso que gostaria de poder dedicar mais tempo ao estudo dessa cidade porque, além da empatia natural que se cria facilmente entre quem, como nós, tem uma formação onde o ambiente urbano não passa despercebido, acho Itaúna uma cidade importante.
Importante por um conjunto de razões entre as quais colocaria em primeiro lugar a possibilidade de compreensão do papel das cidades médias em um contexto regional perimetropolitano, já que são estes organismos urbanos que conservam ainda aqueles aspectos que são típicos da vida urbana e que são cada vez mais raros nas grandes cidades e nas metrópoles. Estes aspectos aos quais me refiro concorrem para definir a qualidade de vida de uma cidade e são, entre outros, a disponibilidade de trabalho, o fácil acesso aos bens de uso público de qualidade por parte de todos os cidadãos, a possibilidade de deslocamentos a pé ou a utilização de meios de transporte coletivos eficientes, a ausência de congestionamento, a ausência de poluição, a falta ou quase da chamada violência urbana que na metrópole alcança níveis cada vez mais insustentáveis.

A descentralização metropolitana com a descentralização de atividades e de população que saem do centro metropolitano em busca da qualidade urbana é um fenômeno que interessa Itaúna e que vai interessá-la cada vez mais colocando para a administração local escolhas que definirão o futuro da cidade a médio e longo prazo.

O fenômeno da descentralização metropolitana parece não ser contemplado na proposta do novo plano diretor que tem no âmbito da inserção regional da cidade no sistema urbano regional um ponto de fraqueza. Como e de que maneira Itaúna for crescer e como o crescimento vai ser conduzido é um aspecto estratégico ainda a ser resolvido que não se pode exaurir na proposta de adensamento da zona urbana existente sob pena de ter como conseqüência processos de derramamento do urbano (informal e de baixa qualidade como novos loteamentos ilegais) por além dos limites impostos pelo plano diretor. A proposta de adensamento da zona urbana assim como a proposta de áreas de expansão (praticamente inexistentes no plano diretor em fase de aprovação) deve ser sustentada por um projeto de melhoria e complementação das infra-estruturas existentes e em primeiro lugar da infra-estrutura viária já que a infra-estrutura viária, como todo mundo sabe, serve de suporte para a maioria das outras (drenagem, esgotos, água, eletricidade etc.).

Observando rapidamente as soluções utilizadas e implementadas em anos recentes no centro urbano de Itaúna (Avenida São João, Avenida Jove Soares) percebe-se como a abordagem utilizada na implantação da infra-estrutura viária local, que resultou determinante na solução projetual, foi influenciada por uma ideologia sanitarista míope que, aplicando uma solução de engenharia (consolidação das margens com a criação de uma avenida sanitária e dimensionamento da calha fluvial) desconsiderou um conjunto de dimensões sistêmicas ambientais (bacia hidrográfica, alteração do regime hídrico dos aqüíferos em relação ao processo de ocupação e permeabilização do solo etc.) que vão bem além da solução (pontual) em si.

As soluções mostram a incompreensão das características e das dinâmicas ambientais locais e, ao mesmo tempo, a incompreensão das características e das dinâmicas urbanas desta porção de espaço que por muito tempo ficou tão perto geograficamente e tão longe dos interesses do capital empresarial.
Se não me falha a memória a canalização do rio são João com a retificação do seu curso remonta aos anos 70, a consolidação de suas margens é mais recente, data dos anos 90, assim como provavelmente a implantação da Avenida São João. Isso significa que por quase 30 anos esta área acabou sendo esquecida. As razões deste esquecimento podem ser compreendidas, não podem, porém ser justificadas as maneiras adotadas para sua integração, que de fato ainda está longe de acontecer, tanto em termos de utilização, já que neste espaço encontra-se além do grande equipamento da Universidade de Itaúna (o centro esportivo), um conjunto de atividades industrias de pequeno porte, um comercio em alguns casos varejista, permanecendo em geral ainda uma baixa densidade em razão da dimensão dos lotes e do processo de ocupação que ainda está em curso.

Em termos de articulação, é patente a sua fragilidade, com articulações mais consolidadas ao longo da rua Silva Jardim a oeste, muito em razão da direção de mão da Avenida São João na margem direta do rio. A articulação norte-sul existe somente nas suas extremidades com a única exceção da passarela de pedestres localizada praticamente em frente a entrada do centro esportivo. Estas articulações norte-sul representam um problema histórico na articulação da área central com o mais importante eixo viário, a rodovia MG-050, afinal com Divinópolis a Oeste e Belo Horizonte ao Leste.

O processo histórico de ocupação da área fez com que a população ocupasse no século XVII, as encostas do Morro do Rosário para se proteger e serem protegidos, ao mesmo tempo, pelas enchentes e pela presença do Rio São João e, ademais poder controlar o entroncamento viário que permitia alcançar ao norte Pitangui, ao Oeste a Passagem de Itapecerica (atual Divinópolis), ao sul São Paulo e ao leste Ouro Preto (antes da construção da nova capital). Esta vantagem estratégica dentro das exigências do século XVII tornou-se um obstáculo no século XX e ainda hoje permanece como tal. O único acesso direto da rodovia MG-050 para o centro é a rua Silva Jardim, antes o acesso era pela rua da Ponte continuação da Rua Santana, ou vice-versa (a ponte estreita ainda existe), cuja congestão é conhecida por todos nós, com o problema maior concentrado no entroncamento entre Silva Jardim, Dona Cota, Miguel Augusto e a própria estrada de ferro.

A solução da continuação da Jove Soares e sua conjunção com a Silva Jardim é uma solução esperada a muito tempo, bem vinda em termos de concepção (transposição transversal, minimizando os impactos no curso d´água) mas que ainda não está funcionando e, do meu ponto de vista, não vai ser a solução que vai resolver todos os problemas que afetam esta região porque vai simplesmente transpô-los para o entroncamento com a Silva Jardim que vai continuar congestionada (basta pensar ao tanto de entroncamentos que existirão em menos de 500 metros de comprimento: Jove Soares, Avenida São João, Dona Cota etc.).

A meu ver precisa-se de mais opções de ligações com a MG-050, o que é dificultado por causa de adensamento da ocupação no Bairro Universitário e a cota do greide da MG-050. Sugiro pensar a utilização da rua da Ponte (com o alargamento da ponte existentes) e uma terceira opção ladeando o centro esportivo evitando a tentação da continuação da Avenida São João em direção oestes. No que diz respeito ao Rio São João o comprometimento de suas margens consolidadas e ocupadas pela homônima avenida sanitária fica registrado na esperança que seja vingada a idéia das zonas de proteção ambiental da sua várzea e dos seus afluentes que reduziriam o risco de seu transbordamento, cada vez mais provável dentro de um processo de impermeabilização da sua bacia e dos seus contribuintes (algumas pessoas me informaram que em época de chuvas a cheia do Rio São João chega a beirar o vigamento da ponte), e na esperança que se possa um dia pensar, assim como acontece em outros âmbitos nacionais e internacionais, na re-naturalização do rio São João neste trecho. Sonhar uma cidade melhor não custa, mas também somente sonhar não basta.

Para quem leu até agora, obrigado pela paciência. Pelos alunos do Estudo de Arquitetura e Urbanismo III da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna desejo um bom trabalho.

Alfio Conti

Arquiteto e Urbanista

Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Itaúna

Um comentário:

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com disse...

A cada dia que passa fico convencido de que o conhecimento dos conceitos de superestrutura, mesoestrutura e infraestrutura apresentados pelo professor Edézio Teixeira no seu livro "Geologia Urbana" são fundamentais para entender e melhorar as nossas cidades.